sábado, 12 de janeiro de 2013

Um quase história de amor

__ Ela é linda,não é? - diz Eduardo ao seu amigo Emanuel.

__ Quem? - pergunta Emanuel.

__ Laura… - responde Edu, pensativo.

Laura era a senhora com 70 anos de cabelos grisalhos, gestos graciosos, cabelos amarrados em um coque bem estruturado, vestida numa conjunto elegante de saia e terninho azul usando uma sapatilha com estampa floral. Ela sempre foi do tipo vaidosa, que não vai à praça sem usar um batom cor de pele e pó compacto. Ao lado dela estava sua amiga de infância, Helena, com quem conversava por horas. Sempre ao anoitecer, na mesma praça próximo a sua casa, nos últimos 15 anos. Eduardo a observava sentado no mesmo banco do outro lado da praça.

__ E quem é Laura, Eduardo?

__ Ela era minha noiva, minha princesa, minha linda. - explica vagarosamente.

__ Você está ficando caduco, homem…

__ Você não sabe de nada, Emanuel! - exclama num tom mais alto.

__ Tudo bem. Você pode me explicar?

__ Laura namorou comigo quando tínhamos 20 anos. Ela sempre foi linda, o jeito como andava, mexia o cabelo, gargalhava; tudo nela era especial e exala vivacidade. Ao mesmo tempo que era um furacão, também tinha seus momentos de brisa. Sussurrava palavras engraçadas e frases obscenas quando estávamos a sós. Tinha um jeito delicado de fazer tudo,sabe? Dormia tão quietinha e ainda assim a cama amanhecia bagunçada, falava baixo e gargalhava por tudo, tudo mesmo. Tinha o costume de fazer tudo por mim, resmungava mas, no fim, fazia o que estava precisando. Brigava comigo quando eu teimava, parecia minha mãe. Ah! Ela não gostava quando eu arrotava em público ou gritasse. Era chata, metódica e tudo que você pensar, e mesmo assim a mulher mais perfeita do mundo,meu caro amigo. Tinha ciúme da vizinha, do cachorro, do vigia da vizinhança gay, da mulher do padeiro e se duvidar das minhas roupas; ela amava tirá-las. Depois de 3 anos de namoro a pedi em casamento, ela tinha um certo pavor dessa palavra; engraçado isso vindo da pessoa mais romântica que eu conheci. Fiz o pedido logo depois de fazermos amor. Lembro como se fosse hoje. Laura disse sim na mesma hora e me encheu de beijos. Sorríamos tanto…

__ Continua,meu amigo. 

__ Não consigo. Nunca vou me perdoar. A machuquei tanto. Fui um canalha! - rosna Eduardo para quem quisesse e pudesse ouvir.

__ Prossiga.

__ Dois meses depois de pedi-la em casamento, tivemos um briga boba e sai batendo portas. Estava estressado e descontei tudo nela. Cheguei no bar, próximo a nossa casa, bebi cinco doses de uma bebiba qualquer. Meia hora depois aproximou-se uma mulher muito sexy, usando vestido preto e justo, cabelos ondulados,longos e negros. Conversamos e fomos parar na cama dela. Não me pergunte o nome; não me recordo ou fiz questão de esquecer… Amanheci ao lado daquela desconhecida. Levantei, me vesti o mais rápido que pude e quando cheguei em casa Laura estava deitada no sofá dormindo profundamente. Esperei ela acordar. Contei tudo que tinha acontecido e ela não fez nada. Nada! Somente levantou, olhou me mais uma vez e foi direto ao quarto. Chorei, chorei e Laura apareceu com duas malas, abriu a porta e nunca mais ouvi o som da sua voz.

Eduardo chorava tanto que suas palavras confundiam-se com os sons da rua.

__ E depois? - pergunta Emanuel.

__ Liguei durante semanas, meses, anos. Fiz de tudo. Mandei recados, fiz serenatas, escrevi cartas. Ela deixou um último bilhete na minha porta:”Nunca mais procure-me. Não preciso mais de você. Tudo que tinha de você em mim, tu mesmo quebrastes. Esqueça-nos!”. Foi o que eu fiz nos próximos 50 anos. Laura namorou muito mas não casou com ninguém. Adotou uma menina. Formou-se, viajou e aprendeu a tocar piano. Tive muitas mulheres, não poderia ficar sozinho, mas nunca as amei…

__ E hoje você a observa como sempre fez. Certo? - pergunta Emanuel.

__ Hoje, amanhã e até quando estes olhos puderem apreciar minha linda, Laura.

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