Parte 10
Diário de Laura. Dez de
junho de 1945.
A Segunda
Guerra Mundial aparenta dá sinais de cansaço. Não creio que ainda vá durar
muito tempo; mais alguns meses, tudo voltará a ficar em silêncio (ou não). Para
mim, pouco fará diferença. O reencontro com Eduardo mexeu comigo. Ele ainda faz
meu coração disparar; parece um carma ou qualquer outra coisa que incomoda
muito.
Passei o
último mês pensando se devo ou não voltar a falar com ele. Seria muito imaturo
ficar nessa situação morna? Nessa indecisão? Sete anos... Uma história pode
durar tudo isso? Um momento. História? Não definiria nossa bagunça como
“história”, mas parece um conjunto de momentos embaçados. O primeiro beijo que
fez meu coração palpitar, a primeira relação amorosa. Piegas, eu sei.
Os dias
passam tão devagar e não sei ao certo como reagir. Jasmim é uma criança feliz,
do tipo que sorri do vento mexendo com os cachos dela. É a melhor companhia que
alguém pode ter. Aprendeu a falar mamãe, soa engraçado, mas como sou boba é a
coisa mais linda do mundo. Fiquei tão feliz que compus uma música. É cômico
vê-la balançando o corpinho ao ouvir a composição.
Enrolei
demais; tenho esse costume quando o assunto é ELE. Preciso contar: Eduardo a
pegou no colo, ela pareceu gostar dele. Não pude negar. Imagine: uma quermesse,
barracas com pessoas amontoadas, os cheiros dos pratos trazidos pela comunidade
exalam por todo canto. Conversas misturam-se num zunido alegre e quente. O
final do dia aproximasse, o tempo fica ameno. Crianças correm e caem a todo
instante. Encontro Dona Lola, minha mãe, conversando com um senhor simpático
próximo a barraquinha de doces do grupo de idosos, do qual ela é a
organizadora.
__ Oi, minha
filha! Que ótimo que veio.
Gritou minha
mãe em meio à multidão de vozes. Sorridente, como sempre.
__ Minha
princesinha Jasmim. Sua mamãe lhe tirou da caverna?
Jasmim sorri
parecendo entender tudo que Dona Lola diz. Ela percebe que estou desconfortável
e diz:
__ Ele virá,
Laura. Acostume-se com isso. Converse com as pessoas e coma algum doce. Finja
que nada aconteceu. Não saia correndo, por favor!
Dei um
sorriso amarelo como resposta e fiz o que ela disse. Jas apontava para os
balões, coloquei a no chão, segurei a pequenina mão e caminhamos até “O Homem
das Bexigas Coloridas”. Ele usava trajes coloridos e maquiagem divertida.
__ Quanto
custa...
Era ele. O
Eduardo. Congelamos por um instante; Jasmim sorria para os balões. Respirei
fundo, engoli saliva, me recompus.
__ Que
menina linda! Quer quantos balões?
Ele riu e
manteve a personagem. Nunca esqueci aquele sorriso. Jasmim balbuciou algo
parecido com “quero” e gargalhou ao vê-lo mexer nos balões.
__ Posso
carregá-la, moça?
Pessoas
esperavam que eu terminasse meu impasse. Ouvi muitas crianças reclamarem e o vi
pegar Jasmim no colo.
__ Oi,
princesa! Tudo bem? Você gosta do balão vermelho?
Eduardo
entregou-a para mim e desamarrou duas bexigas vermelhas.
__ É um
presente. Aceite, Laura.
__ Hmm...
Não sei.
__ Quem é o
próximo? – Ele ria para as crianças e seus pais na esperança de amenizar a
espera. __ Precisamos conversar. Encontre-me no Café com Açúcar sábado à tarde,
por volta das seis da tarde. Não falte, Laura. Por favor.
Dei as
costas a ele e caminhei com uma Jas feliz da vida nos braços. Ela nem imaginava
que a mãe desmontava-se a cada passo.
Aí você me
pergunta: é bobagem ou falta de coragem se eu não for? É medo de não conseguir
lidar com a bagagem de sentimentos que nós dois criamos? Quanta bagunça! Já me
desfiz tantas vezes por culpa sua e basta uma dúzia de palavras vindas dos teus
lábios para me reencontrar.
Valyne Oliveira