quinta-feira, 18 de abril de 2013


Parte 10

Diário de Laura. Dez de junho de 1945.

A Segunda Guerra Mundial aparenta dá sinais de cansaço. Não creio que ainda vá durar muito tempo; mais alguns meses, tudo voltará a ficar em silêncio (ou não). Para mim, pouco fará diferença. O reencontro com Eduardo mexeu comigo. Ele ainda faz meu coração disparar; parece um carma ou qualquer outra coisa que incomoda muito.
Passei o último mês pensando se devo ou não voltar a falar com ele. Seria muito imaturo ficar nessa situação morna? Nessa indecisão? Sete anos... Uma história pode durar tudo isso? Um momento. História? Não definiria nossa bagunça como “história”, mas parece um conjunto de momentos embaçados. O primeiro beijo que fez meu coração palpitar, a primeira relação amorosa. Piegas, eu sei.
Os dias passam tão devagar e não sei ao certo como reagir. Jasmim é uma criança feliz, do tipo que sorri do vento mexendo com os cachos dela. É a melhor companhia que alguém pode ter. Aprendeu a falar mamãe, soa engraçado, mas como sou boba é a coisa mais linda do mundo. Fiquei tão feliz que compus uma música. É cômico vê-la balançando o corpinho ao ouvir a composição.
Enrolei demais; tenho esse costume quando o assunto é ELE. Preciso contar: Eduardo a pegou no colo, ela pareceu gostar dele. Não pude negar. Imagine: uma quermesse, barracas com pessoas amontoadas, os cheiros dos pratos trazidos pela comunidade exalam por todo canto. Conversas misturam-se num zunido alegre e quente. O final do dia aproximasse, o tempo fica ameno. Crianças correm e caem a todo instante. Encontro Dona Lola, minha mãe, conversando com um senhor simpático próximo a barraquinha de doces do grupo de idosos, do qual ela é a organizadora.

__ Oi, minha filha! Que ótimo que veio.

Gritou minha mãe em meio à multidão de vozes. Sorridente, como sempre.

__ Minha princesinha Jasmim. Sua mamãe lhe tirou da caverna?

Jasmim sorri parecendo entender tudo que Dona Lola diz. Ela percebe que estou desconfortável e diz:
__ Ele virá, Laura. Acostume-se com isso. Converse com as pessoas e coma algum doce. Finja que nada aconteceu. Não saia correndo, por favor!

Dei um sorriso amarelo como resposta e fiz o que ela disse. Jas apontava para os balões, coloquei a no chão, segurei a pequenina mão e caminhamos até “O Homem das Bexigas Coloridas”. Ele usava trajes coloridos e maquiagem divertida.

__ Quanto custa...

Era ele. O Eduardo. Congelamos por um instante; Jasmim sorria para os balões. Respirei fundo, engoli saliva, me recompus.

__ Que menina linda! Quer quantos balões?

Ele riu e manteve a personagem. Nunca esqueci aquele sorriso. Jasmim balbuciou algo parecido com “quero” e gargalhou ao vê-lo mexer nos balões.

__ Posso carregá-la, moça?

Pessoas esperavam que eu terminasse meu impasse. Ouvi muitas crianças reclamarem e o vi pegar Jasmim no colo.

__ Oi, princesa! Tudo bem? Você gosta do balão vermelho?

Eduardo entregou-a para mim e desamarrou duas bexigas vermelhas.

__ É um presente. Aceite, Laura.
__ Hmm... Não sei.
__ Quem é o próximo? – Ele ria para as crianças e seus pais na esperança de amenizar a espera. __ Precisamos conversar. Encontre-me no Café com Açúcar sábado à tarde, por volta das seis da tarde. Não falte, Laura. Por favor.

Dei as costas a ele e caminhei com uma Jas feliz da vida nos braços. Ela nem imaginava que a mãe desmontava-se a cada passo.
Aí você me pergunta: é bobagem ou falta de coragem se eu não for? É medo de não conseguir lidar com a bagagem de sentimentos que nós dois criamos? Quanta bagunça! Já me desfiz tantas vezes por culpa sua e basta uma dúzia de palavras vindas dos teus lábios para me reencontrar.

Valyne Oliveira

sexta-feira, 5 de abril de 2013


ENCONTREI-TE NA ESQUINA DA VIDA. PARTE 3.

O (re) encontro
*Mauro*


O bar está barulhento demais. Mesas sendo arrastadas, cadeiras tiradas do lugar, pessoas entram e saem num ritmo desconexo. Faz frio lá fora e muitos casacos amontoam-se no cabide extragrande do lugar. Pedi água com gás com muitas pedras de gelo, fui ao banheiro duas vezes e parecia que havia marcado um encontro com Julia Roberts. “Encontro? Não é um encontro ainda, Mauro. Marisa o atenderá como faz toda noite de sábado.” Diz a voz teimosa na minha cabeça. Ela é tão prepotente, se acha a dona de toda verdade. Baixo a vista e quando ergo a cabeço, Marisa caminha lentamente em direção à minha mesa. O cabelo preso num coque bem estruturado, uniforme bem justo, mas não vulgar. Percebi que se maquiou; quando estava perto o bastante inspirei o perfume amadeirado que ela havia passado.

__ Boa noite, Ma-mauro!

Ela gaguejou! Isso é bom?

__ Boa noite, Marisa. É... Tudo bem?
__ Sim. Mauro, sem querer prolongar muito essa conversa fiada, preciso saber se é verdade tudo que diz na carta ou é alguma brincadeira de mau gosto?

COMO ASSIM? Nunca pensei que ela fosse ser TÃO direta. Ensaiei um discurso e foi tudo por água abaixo. Droga!

__ Verdade. Marisa, não estou brincando com você. Quero que acredite em tudo que disse. Já fiz muitas cartas, mas nenhuma me trouxe tanto nervosismo ou receio. Você aceita jantar comigo? Pode escolher o lugar. Prometo que vou me comportar.

Ela riu e arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

__ Pode ser hoje? Saio mais cedo e podemos ir ao Docce. É um restaurante que tem mais guloseimas do que pratos requintados. Gosto de tudo por lá. Quinze minutos daqui. – Ela diz com uma empolgação contida.
__ Parece ótimo. Espero-lhe aqui.
__ Mais uma hora e podemos ir.

Foi a hora mais longa da minha vida. Com permissão para exagero e todo o resto. Marisa apareceu vestida numa calça jeans justa, blusa branca e casaco leve e rosa bebê. Cabelo solto. Espetacular!

__ Podemos ir? – Pergunta sorridente.
Levantei e disse:
__ Primeiro as damas!

Ela relaxou e caminhou em direção à saída. Abri a porta do carro para ela; pareceu-me surpresa e não entendi por que. Minha mãe ensinou-me que homens precisam tratar as mulheres como se fossem flores; ela dizia isso enquanto organizava seu jardim. Cresci ouvindo isso e sempre meus amigos brincavam com esse meu jeito. Tanto faz; minha mãe era sábia e estava certa.
Fizemos o percurso em silêncio, embalados pelas músicas tocadas na rádio. Estacionei e percebi que o restaurante é bem diferente de todos os outros. Pequenas luzes cobriam o estacionamento; parecia o céu. Postes pretos e de alumínio, daqueles que vemos somente nos filmes. O lugar parecia um jardim: rodeado por flores, árvores de pequeno porte, porta e chão de madeira; parecia ser uma antiga casa. Mesas com pequenos vasos, guardanapos bem arrumados e cadeiras de alumínio com assento almofadado. Devo admitir: lugar muito bonito. Bom gosto a Marisa têm. Conversamos durante duas horas. Percebi que ela não é nada durona, corajosa, mas uma mulher delicada, sonhadora e dona de um sorriso arrebatador. Saiu de casa aos vinte anos e quer estudar Nutrição. Sonha em cuidar de crianças na África. Altruísta em cada pedaço de si. Quer ter um cachorro chamado Flocos, porque ela adora esse sabor de sorvete. É engraçada, se expressa tão bem e sorri sempre que pode.
Ela sugeriu que eu pedi-se a lasanha da casa. E teve razão ao dizer que é um “orgasmo gastronômico” e para acompanhar tomamos vinho Rosé. Ela fez algumas perguntas, mas estava tão encantado que resolvi escutá-la.

__ Você gosta de ir ao cinema? – Perguntou-me curiosa.
__ Com certeza. Gosto de drama, ficção, ação, suspense. Na verdade, gosto de uma boa história. Vamos ao cinema?

Fiquei surpreso com minha “audácia”.

__ Claro! Seria um prazer. Mas não quero chorar, então vamos assistir uma boa e velha comédia. Pode ser?
__ O que a senhorita desejar.
__ Você é sempre tão galante?
__ Somente com mulher bonita, inteligente e que atende mesas no bar da esquina.

Vi que a deixei corada e percebi que ela gostou do que disse, mas manteve-se controlada, como uma dama. Terminamos. Levei-a em casa e a vi passar pelo portão do conjunto de prédios. Sorri o restante da noite e a vi novamente em meus sonhos.


Valyne Oliveira

segunda-feira, 1 de abril de 2013


Tenho medo. Medo de que me torne uma mera estranha, mais uma na sua infinita lista de contatos. Não posso ser mais um número no teu telefone ou mais uma no e-mail. Quero ser tudo para você; preciso que você veja que sou tua de corpo e alma, da cabeça aos pés. Faria por você o que nenhuma mulher pode fazer. Precisas de mim tanto quanto preciso de ti. Pode negar e bater o pé, mas sei que o nome do que guarda no peito é orgulho. Tenho consciência de que está assustado, afinal nunca fui do gênero que deixa claro o que sente (talvez esse tenha sido meu erro), mas preciso você de volta na minha vida. Volta para meu abraço, meu sorriso tem saudade do teu, a cama está fria, os travesseiros já não ocupam seu lugar. Pensa com carinho em tudo que já vivemos e temos para viver. Não imagine que meu silêncio significa ausência de sentimento, pelo contrário tenho receio por ser dona de um amor tão forte que chega a transbordar em mim. Só volta e fica.

Valyne Oliveira