sábado, 12 de janeiro de 2013

- Parte 7 -

Diário de Laura, dia 610. Dezoito de janeiro de 1943. 

Ontem à noite mal dormi. Depois de anos você apareceu no meu sonho e dessa vez não tive vontade chorar. Veja que maravilha!Você me fez bem depois de dias. Quanta ironia... Pela primeira vez sonhei com nossa primeira relação amorosa. Dois bobões, sem saber o quê fazer e como fazer. 
Era uma noite de sábado, estava fazendo um pouco de frio desde cedo e havíamos passado a tarde passeando pelo parque. Tomamos sorvete e, como sempre, sujei-me. ”Laura, você precisa se sujar toda vez?” Lembro-me de você brincando com minha falta de jeito. Três de abril de 1936. Esse dia ficou gravado na minha pele. Ele me convidou para irmos até a casa dele; precisa me limpar. Os pais dele estavam num chá da tarde; não nos contínhamos de tanta emoção. Estávamos a sós! Sabe o quanto isso era difícil?
Fui ao banheiro, passei água na bainha do vestido e a mancha teimava em permanecer intacta. Eduardo entrou no banheiro e encontrou-me toda bagunçada, reclamando da vida. Lembro-me do teu sorriso, do jeito como abriu os botões do meu vestido. Tudo bem devagarzinho, tomando cuidado para que eu não me assustasse. Não dissemos nada um ao outro, a confirmação estava evidente em nossos olhares cúmplices. Fiquei corada e percebi que estava se divertindo, como sempre, com a situação. Nossa respiração obedecia a um ritmo apressado. Recordo-me de ter ficado tímida; era a primeira vez que um homem me olhava somente com peças íntimas. 
Caminhamos até seu quarto. Mãos dadas, olhos curiosos, passos leves, mas apreensivos. Sentei-me na sua cama – pela primeira vez. Você fechou a porta, trancou as janelas e deixou apenas o abaju ligado. Sentaste junto a mim; vi que estava nervoso e empolgado. Tomei a iniciativa de beijá-lo; vi que se espantou, mas continuou a fazê-lo desesperadamente. Tocamos-nos como de costume, porém senti que precisávamos de mais. Ainda lembro-me da tua mão traçando caminhos por minhas coxas enquanto eu desabotoava tua camisa de algodão e logo depois você fica sem roupas de baixo. Teu corpo estava quente e surgiam gotas de suor em teu pescoço. O quarto ficava abafado, mas continuava agradável. Deitei-me e você ficou por cima de mim; nossos corpos tocavam-se e gemidos preenchiam o silêncio do quarto. Você me deixou relaxada; não parecia tua primeira relação. Queria tanto, quase implorei. 
Aconteceu. Foi tão bom e tão estranho. Tão diferente e tão conhecido. Instintivo é a palavra que melhor define. Tua expressão de satisfação, descobrimento misturavam-se às minhas reações de espanto. Podia ouvir o bater do meu coração nos ouvidos. Passamos cerca de dez minutos experimentando a nova descoberta, mas fiquei com receio de algo desse errado e tua compreensão entrou em cena. Carinhoso, cuidadoso. Cobriu-me sem pressa e com todo zelo. Deitados. Sem precisar dizer nada. Lembro que tua boca balbuciou um “Eu te amo, minha linda”.
Sabe o quê ficou de tudo isso, Eduardo? Lembranças. Agarro-me a elas como se dependesse disso para viver. É só uma tentativa bizarra de vê-lo como aquele homem por quem me apaixonei.
Já chega... Espero que esteja bem e feliz agora. Durma tranquilamente; faça isso por mim.


Valyne Oliveira

Nenhum comentário:

Postar um comentário