– parte 6 –
Diário de Laura, dia 595. Três de janeiro de 1943.
Faz mais de seis meses que falei com o Felipe; o homem que me convidou para fazermos um piquenique, ele percebeu que faltava um “pedaço” de mim (estou sendo piegas, eu sei) e acabei falando sobre você. A expressão dele quando terminei de falar me fez sorrir; uma mistura de espanto com decepção. Não precisei me explicar, ele simplesmente compreendeu a situação e disse que estava disposto a cuidar de mim. Não sei se é certo, mas fiquei com pena dele e admirada também.
Juro que tentei. Passeamos próximo ao lago que fica nos fundos do rancho da família dele, tomamos sorvete e fomos ao parque da cidade duas vezes. Nossas conversas deram certo e tínhamos semelhanças, mas nada disso bastou. Sem querer comecei a comparar ele com você: a gargalhada dele é estranha; não me faz gargalhar junto, o jeito que ele arruma o cabelo é muito certinho, Felipe não é uma pessoa positiva como você Edu; parecemos dois velhos rabugentos que reclamam até da brisa. Creio que seja errado comparar pessoas, porém foi uma atitude rotineira. Não demos certo por muito tempo. Logo ele cansou-se de tentar aparar os ramos que eu insistia em deixar crescer. Perdemos contato com o passar dos dias. [...]
As aulas na Escola de Música são magníficas. Passo minhas folgas do hospital me dedicando às partituras e composições. Minha vida está uma bagunça: dias no hospital e noites debruçada sobre livros de música. O último mês resume-se a isso. Dona Lola, minha neurótica mãe, presenteou-me com um piano de cauda, a sala do apartamento está tomada por ele.
As notas musicais tem preenchido parte dos buracos cavados por tua atitude, Eduardo. Compus uma música no piano enquanto pensava sobre nossa primeira noite. Adoraria que você ouvisse e me dissesse que preciso melhorar muito com um sorriso esperto nos lábios. Ainda sinto falta até desse teu jeito maroto.
Já revivi centenas de vezes quando vi você no mercado próximo à casa da Helena, minha doce amiga; meu coração entrou em pânico, minha mãos estavam suadas, boca seca, minha mente criou um filme nosso em questão de segundos. Larguei as compras no balcão e só pude ouvir o Senhor João, dono do comércio, gritar meu nome. Eduardo, você continua aquele rapaz robusto, elegante e dono de sorriso fácil. Nunca mais quero sentir a sensação esmagadora de querer correr ao teu encontro e, ao mesmo tempo, ter vontade de mantê-lo distante.
Como gostaria de dizer que está tudo bem e que aceito você, mesmo que esteja manchado de erros após aquela noite. Mais um dia, mais uma noite e ainda continuo bagunçada por culpa tua.
Valyne Oliveira
Diário de Laura, dia 595. Três de janeiro de 1943.
Faz mais de seis meses que falei com o Felipe; o homem que me convidou para fazermos um piquenique, ele percebeu que faltava um “pedaço” de mim (estou sendo piegas, eu sei) e acabei falando sobre você. A expressão dele quando terminei de falar me fez sorrir; uma mistura de espanto com decepção. Não precisei me explicar, ele simplesmente compreendeu a situação e disse que estava disposto a cuidar de mim. Não sei se é certo, mas fiquei com pena dele e admirada também.
Juro que tentei. Passeamos próximo ao lago que fica nos fundos do rancho da família dele, tomamos sorvete e fomos ao parque da cidade duas vezes. Nossas conversas deram certo e tínhamos semelhanças, mas nada disso bastou. Sem querer comecei a comparar ele com você: a gargalhada dele é estranha; não me faz gargalhar junto, o jeito que ele arruma o cabelo é muito certinho, Felipe não é uma pessoa positiva como você Edu; parecemos dois velhos rabugentos que reclamam até da brisa. Creio que seja errado comparar pessoas, porém foi uma atitude rotineira. Não demos certo por muito tempo. Logo ele cansou-se de tentar aparar os ramos que eu insistia em deixar crescer. Perdemos contato com o passar dos dias. [...]
As aulas na Escola de Música são magníficas. Passo minhas folgas do hospital me dedicando às partituras e composições. Minha vida está uma bagunça: dias no hospital e noites debruçada sobre livros de música. O último mês resume-se a isso. Dona Lola, minha neurótica mãe, presenteou-me com um piano de cauda, a sala do apartamento está tomada por ele.
As notas musicais tem preenchido parte dos buracos cavados por tua atitude, Eduardo. Compus uma música no piano enquanto pensava sobre nossa primeira noite. Adoraria que você ouvisse e me dissesse que preciso melhorar muito com um sorriso esperto nos lábios. Ainda sinto falta até desse teu jeito maroto.
Já revivi centenas de vezes quando vi você no mercado próximo à casa da Helena, minha doce amiga; meu coração entrou em pânico, minha mãos estavam suadas, boca seca, minha mente criou um filme nosso em questão de segundos. Larguei as compras no balcão e só pude ouvir o Senhor João, dono do comércio, gritar meu nome. Eduardo, você continua aquele rapaz robusto, elegante e dono de sorriso fácil. Nunca mais quero sentir a sensação esmagadora de querer correr ao teu encontro e, ao mesmo tempo, ter vontade de mantê-lo distante.
Como gostaria de dizer que está tudo bem e que aceito você, mesmo que esteja manchado de erros após aquela noite. Mais um dia, mais uma noite e ainda continuo bagunçada por culpa tua.
Valyne Oliveira
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