sábado, 12 de janeiro de 2013

‎- Parte 3 -
Diário de Laura, dia 235. Cinco de março de 1941.

BURRA, BURRA E BURRA! Você acha certo o que fizestes na noite passada, Laura? Cá estou falando comigo mesmo pela centésima vez. Por volta das oito horas na noite de ontem, a campainha tocou e corri para abrir a porta. Quase não acreditei quando dei de cara com o Eduardo. É, o filho da mãe por quem choro toda noite antes de pegar no sono, o próprio. Fiquei tão nervosa; comecei a suar, ficar com as mãos trêmulas e inquietas, parecia que estava recebendo socos no estômago. Estava indecisa entre abraça-lo e enchê-los de chutes no meio das pernas. Foi uma briga interna tão grande que ele percebeu, mas só disse: “Oi!” Oi? Como é que alguém com quem você transou, trocou segredos, fez carícias e mais uma centena de pequenos gestos de amor diz apenas isso? Outra decepção; só para variar mais uma noite dos horrores! Se eu tivesse conseguido gritar tudo que está engasgado tenho certeza de que o Eduardo teria descido correndo escadaria abaixo. Pedi que entrasse, parecia surpreso, mas não recusou. Ofereci um copo d’água, busquei o mais rápido que pude e sente-me na poltrona floral de frente para ele. Ficamos em silêncio por cerca de dez minutos; passei cinco minutos observando meu tapete e o Edu me analisou cada segundo dos dez minutos mais longos da minha vida. Sem exagero! Não sabia se perguntava se estava tudo bem, se ele tinha jantado, onde estava morando; mas soaria tão louca quanto, realmente, estou. Como ele continua lindo; o mesmo jeitinho, mesmo corte de cabelo. O tempo tinha parado ou nem começou a andar para ele.

__ Laura? 
__ Hm?
__ Estou com saudades. Muita saudade!
__ Você está louco? Bebeu antes de vir até aqui? Você acha que pode tocar a minha campainha, dizer que está com saudade, muita saudade e não sei mais o quê e consertar tudo? Mais que droga de pensamento é esse? Eduardo, você tem noção de quantas vezes deixei de dormir pensando em cada momento que tivemos, relembrando nossa primeira vez e perguntando para as paredes se eu era a errada da história? Têm noção disso? 
__ Desculpa. Prometo que farei de tudo para ficarmos bem; como se nada tivesse acontecido! Por favor, minha linda.
__ Pelo amor de Deus, para de falar tanta besteira, nojento! Eu odeio, odeio de todo coração tudo que ainda sinto por você. Eu te odeio! 
Minha voz saiu entrecortada pelo choro desesperado. Gritei para toda vizinha ouvir. Chorei até sentir meus olhos arderem. Doeu tanto desenterrar tudo. Imaginei mais uma vez ele deitado com outra na cama; fazendo sexo, todo suado, despindo as roupas que eu havia dado no último Natal.
Eduardo estava ajoelhado tão próximo a mim que podia ouvir a respiração sufocada pelo pavor de me ver naquele estado. Suas mãos tocaram meus joelhos, logo depois ele encostou a testa nos nós que meus dedos faziam no meu cabelo. “Por favor!”, ele repetia baixinho. Segurou meu queixo com uma das mãos, beijou meu rosto e deixou as lágrimas percorrem o rosto cansado. Não me pergunte como fomos da sala para meu quarto, mas lembro do momento no qual paramos de chorar e sorrimos um para o outro. FOI MARAVILHOSO! Por algumas horas me deixei esquecer as horas de sono perdidas, o cansaço da manhã seguinte, briga com amigos por conta de toda situação e mais choro. Pareceu a primeira vez, não tivemos pressa e muito menos pudor. O bairro escutou todo nosso desespero no início da noite e, logo depois, horas de intenso desejo saciado. Acordei um pouco antes dele, deixei um recado na cabeceira da cama e tive que sair da casa até ele desistir de esperar.
Voltei na hora do almoço e encontrei outro bilhete: “Nunca esqueci você, Laura. A noite de ontem foi a prova de que você também não me esqueceu e devemos ficar juntos. Encare isso como uma história escrita por Deus, onde passamos por testes para provar que merecemos um ao outro. Desculpa se ti fiz chorar, mas saiba que chorei cada manhã que acordei e não encontrei a cama bagunçada, seu cabelo desajeitado e o teu desespero para parecer menos desarrumada. Eu te amo, linda”. Não chorei e nem tive vontade. Estava em choque. Comi, tomei banho e estou tentando montar o quebra-cabeça da minha vida até agora. São onze da noite e ainda não encaixei cinco peças dele.


Valyne Oliveira

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