Observação: Segunda parte do texto “Diário de Laura”.
Diário de Laura, dia 152. Cinco de março de 1940.
Dois anos e um mês que tudo morreu. Posso não escrever todos os dias sobre você ou sobre nós dois. Sinceramente, evito fazê-lo já que é mais doloroso do que tranquilizador. Fiz muito em dois anos, creio que tenha sido uma tentativa desesperada de tentar apaziguar a vontade de você e desejo de que morra. Meu guarda-roupa todo mudou. Lembra-se daquele vestido de algodão? Deve estar no corpo de outra mulher; fiz uma doação e ele foi, acidentalmente ou não, junto. Ele me lembra daquela vez que ficamos deitados contando as estrelas e conversando sobre nada tão importante. Estava tão frio, lembra?
Ontem sai com um homem lindo, carinhoso e dono de um corpo maravilhoso. Acredita que não dei uma gargalhada com ele? Foi deprimente. Ele já deve ser o décimo da lista de homens que sai, bebi e não senti nada, além de sentir desejo. Não era você, Eduardo. Esse é o problema, a droga do problema. Um deles me pediu em namoro, o nome dele é Ricardo; é para fazer piada com a situação toda? Um homem maravilhoso com o nome que rima com o seu. Estou perdida. Continuo a me sentir dormente.
O cara do leite perguntou por você hoje. Ele só pode beber, e muito. Como foi que não percebeu? Acordo todas as manhãs com cara de quem chorou a noite toda e de mau-humor. Homens são tolos demais. Noite passada fiquei imaginando se está bem, como vai o trabalho e se conseguiu começar os estudos. Ainda dói tanto e nenhum remédio deu jeito. Mamãe perguntou se vou morrer; quanto exagero!
São dez e meia da noite e cá estou escrevendo sobre você. Decidi que farei isso todo ano no dia cinco de março. Espero que no dia cinco de março de 1941 tenha conseguido começar os estudos, seja promovida e quem sabe ter esquecido você. Duvido muito, Laura. Afinal, começar a falar consigo mesmo é um indício de que tudo está mais fora do controle do que estava.
Hoje chorei menos. Quem sabe amanhã consiga dormir mais cedo. Espero que tenha uma boa noite, Edu.
Valyne Oliveira
Diário de Laura, dia 152. Cinco de março de 1940.
Dois anos e um mês que tudo morreu. Posso não escrever todos os dias sobre você ou sobre nós dois. Sinceramente, evito fazê-lo já que é mais doloroso do que tranquilizador. Fiz muito em dois anos, creio que tenha sido uma tentativa desesperada de tentar apaziguar a vontade de você e desejo de que morra. Meu guarda-roupa todo mudou. Lembra-se daquele vestido de algodão? Deve estar no corpo de outra mulher; fiz uma doação e ele foi, acidentalmente ou não, junto. Ele me lembra daquela vez que ficamos deitados contando as estrelas e conversando sobre nada tão importante. Estava tão frio, lembra?
Ontem sai com um homem lindo, carinhoso e dono de um corpo maravilhoso. Acredita que não dei uma gargalhada com ele? Foi deprimente. Ele já deve ser o décimo da lista de homens que sai, bebi e não senti nada, além de sentir desejo. Não era você, Eduardo. Esse é o problema, a droga do problema. Um deles me pediu em namoro, o nome dele é Ricardo; é para fazer piada com a situação toda? Um homem maravilhoso com o nome que rima com o seu. Estou perdida. Continuo a me sentir dormente.
O cara do leite perguntou por você hoje. Ele só pode beber, e muito. Como foi que não percebeu? Acordo todas as manhãs com cara de quem chorou a noite toda e de mau-humor. Homens são tolos demais. Noite passada fiquei imaginando se está bem, como vai o trabalho e se conseguiu começar os estudos. Ainda dói tanto e nenhum remédio deu jeito. Mamãe perguntou se vou morrer; quanto exagero!
São dez e meia da noite e cá estou escrevendo sobre você. Decidi que farei isso todo ano no dia cinco de março. Espero que no dia cinco de março de 1941 tenha conseguido começar os estudos, seja promovida e quem sabe ter esquecido você. Duvido muito, Laura. Afinal, começar a falar consigo mesmo é um indício de que tudo está mais fora do controle do que estava.
Hoje chorei menos. Quem sabe amanhã consiga dormir mais cedo. Espero que tenha uma boa noite, Edu.
Valyne Oliveira
Nenhum comentário:
Postar um comentário