Parte 11. Diário de Laura. Vinte de junho de 1945.
Coloquei o vestido de algodão que mais gosto; fiz um coque bem estruturado no cabelo, combinei os brincos de pérola com gargantilha que ganhei da minha vovó Lênora, calcei a luva rendada que comprei numa lojinha charmosa no Centro. Jasmim observa-me com tamanha atenção; não parecia ter pouco mais de um ano de vida, tão sagaz. Sorri para ela e a vi piscar os olhos diminutos para mim. Estava nervosa e ela percebeu: desceu da cama com dificuldade e veio cambaleante até mim, abraçou minhas pernas e ficou quietinha.
__ Oi, princesa. A mamãe ficou bonita?
“A mamãe ficou bonita?” Laura, isso não é um encontro amoroso. Lembra minha querida voz interna; ela soa arrogante. Lá no fundo sei que ela tem razão, mas é algo mecânico. Ajo por impulso; sinto-me como se fosse me encontrar com o Edu de sete anos atrás. Mamãe tocou a campainha bem na hora marcada. Respirei fundo, peguei a pequena Jas no colo e fui abrir a porta.
__ Oi, minha querida! – Ela disse. E abraçou a nós duas.
__ Que bom que chegou mamãe! Estou tão aflita. Sinto-me pequenina, como se o mundo fosse me esmagar contra a lua.
__ Respira! Você parece uma pessoa descontrolada falando assim, Laurinha.
__ Tudo bem. Você está certa...
__ E como é que minha princesinha está? Tudo bem, Jasmim? – Dei Jas para que mamãe a carrega-se e comecei a andar em círculos na sala.
__ Minha filha, cuidado para não abrir um buraco no chão.
__ Mãe! Ou faço isso ou me jogo da janela.
__ Quanto drama... Eduardo é um simples homem, minha filha. Outros virão. Então mantenha a calma, permaneça de cabeça erguida e vá de salto.
__ Salto? Mãe, isso é um conselho?
__ Confie em mim. Sempre que estava com medo ou nervosa quando tinha um encontro, usava o meu melhor salto e fingia que estava muito segura de mim.
Não consegui dizer nada. Dona Lola é uma mulher incrível e deve saber o que diz. Quase cinco e meia da tarde. Precisava me apressar.
__ Volta daqui duas horas no máximo.
__ Espero que não.
__ Mãe!
Abri a porta e sai sorrindo. Assim que cheguei ao térreo, minha barriga entrou em desespero, minhas pernas fraquejaram, a luva começou a incomodar. Em vinte minutos cheguei à entrada do Café com Açúcar. Respirei fundo e espiei os clientes. Parei de respirar por dois segundos. Lá estava ele, numa mesa mais afastada, de costas para a rua. Ele tinha, e pelo visto ainda têm o costume de escolher sempre a mesa mais discreta. Jaqueta que herdou do avô, camisa de algodão, calças e sapatos confortáveis. Aproximei-me da mesa a passos curtos e ele virou-se para mim, abriu um sorriso e indicou a cadeira logo à frente dele.
__ Confesso que estou aliviado, muito aliviado...
Comentário estranho. Edu nunca perdeu esse costume. Suspiro.
__ Aliviado? Sou uma dama e isso quer dizer que não falto a um compromisso, Edu-eduardo.
Ele achou graça em alguma coisa. Estou indecisa entre minha gagueira nervosa ou minha arrogância de sempre.
__ Sei disso, Laura.
Ah! O jeito como ele fala meu nome, a forma que os lábios se movimentam, o tom da voz. Respirei fundo.
__ Vou pedir um café. Você quer? – Perguntei a primeira coisa que veio à mente.
__ Já pedi. Você ainda gosta com bastante leite e doce?
“Isso não vai dar certo, isso não vai dar certo, não vai dar!” Minha voz interior voltou.
__ Sim. E obrigada. – Não tinha estrutura para dizer mais nada.
__ Você deve estar se perguntando o motivo deste encontro... Certo?
__ Com certeza.
O vi mexer no bolso da jaqueta e retirar uma folha de papel bem dobrada de lá. Qual era a invenção de agora? Na dúvida, corro até chegar a minha casa.
__ Posso ler?
__ Como? Ler para mim? Não acho apropriado, Eduardo.
__ Para você. Pare com isso! Respeite o quê estou fazendo por ti, Laura.
__ Certo papai.
__ Amadurecer para quê, certo? – E sorriu, deliciando-se com minha infantilidade. O vi respirar profundamente, olhar para mim e depois para o pedaço de papel e então começou a ler.
__ Laura, as flores que você trouxe para meu apartamento secaram há muito tempo, os discos que ouvíamos estão cheios de poeira, guardei tua almofada no guarda-roupa junto com a toalha lilás que você deixou para trás. Os quadros que pintastes nas manhãs de domingo estão escondidos dos meus olhos, tua xícara escondi no fundo do armário, tua escova de cabelo também foi esquecida. Você não esqueceu nem uma foto nossa. Por quê? Não pense que isso foi o bastante para esquecer o jeitinho do teu sorriso, a cor dos teus cabelos, o tom da tua pele. Volta e meia sonho com nós dois. É engraçado porque me parece errado quando estou acordado, mas é tão bom quando estou dormindo. Penso em você com mais frequência do que deveria Laura. Fico imaginando nós três juntos. Sim. Você, eu e Jasmim. Aliás, que pequena linda. Muito parecida contigo; sempre soube que quando fosse mãe, teu filho seria digno de uma propaganda na loja de bebês. Estou sozinho ao contrário de ti. Não tenho uma princesa de meio metro de altura para compartilhar minhas alegrias e tristezas.
Meus amigos dizem que você “acabou” comigo, me deixou ranzinza, mas é mentira. Graças a ti pude por em prática sentimentos bons que até então desvalorizava. Engraçado como alguém com um metro e sessenta de altura pode desnudar a alma de um cara como eu. Pensei em entregar-te esta carta centenas de vezes durante esses anos, porém não sou corajoso o bastante e sei que você jogaria todas elas no lixo. Não sei se foi o destino, os anjos ou Deus que marcou nosso reencontro na quermesse; gosto de acreditar que era para ter acontecido e pronto.
Desculpa se estou soando piegas, sem graça ou cruel demais por mexer com um assunto tão frágil. Por favor, não corra assim que eu terminar esta frase, preciso que você responda, grite, sussurre ou qualquer reação.
Tudo ficou borrado, minha vista perdeu um tanto do foco. Uma sensação de não ter comido há muitas horas. Levantei, esbarrei em uma mesa ou cadeira, lágrimas dificultaram tudo. Corri, ouvi gritarem meu nome, ele chamou meu nome, na verdade. Cheguei a uma pracinha simples: bancos pequenos, casais, famílias, cães, conversas. Sentei-me próxima a pequena fonte, coloquei meu rosto entre minhas mãos e escondi minha tristeza do mundo. Senti a forte fragrância da colônia que ele sempre usou bem ao meu lado.
__ Laura?
Não sei se é correto, sensato ou normal, mas precisei abraça-lo. Os braços, o cheiro, o conforto, tudo de volta em pequenos segundos.
__ Você é louco e quer me deixar louca também?
Minha voz estava encharcada e percebi que ele estava sorrindo, só que não tive coragem de soltá-lo. Nossas respirações estavam em conflito. Senti que ele estava me soltando bem devagarzinho e de um segundo para o outro estávamos nos beijando. Sentia tanta saudade que o beijo parecia pouco. É errado, sei que errado, porém minha voz interior parecia adormecida e não fiz questão de acordá-la. O que aconteceu a seguir foi confuso: levantamos-nos depressa, andamos com mais pressa ainda e em questão de quinze minutos Eduardo fechava a porta do apartamento dele. Tirávamos as roupas com desespero; parecia que o mundo ia acabar e tínhamos apenas aquele momento para despir cada sentimento guardado no peito. Nada foi dito, não era preciso. A cama rangia com o peso dos nossos corpos, os lençóis estavam espalhados no escuro do quarto. Lembro-me de adormecer quando o céu começou a ficar acinzentado. Acordei alarmada. Eduardo dormia como uma criança: quieto e sorrindo com os anjos. Não podia lidar com aquilo, corri para o banheiro, coloquei minha roupa. Sou covarde, eu sei. Fechei a porta e disse a mim mesma que havia enlouquecido há muito tempo e nem percebi.
Valyne Oliveira
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