sexta-feira, 5 de abril de 2013


ENCONTREI-TE NA ESQUINA DA VIDA. PARTE 3.

O (re) encontro
*Mauro*


O bar está barulhento demais. Mesas sendo arrastadas, cadeiras tiradas do lugar, pessoas entram e saem num ritmo desconexo. Faz frio lá fora e muitos casacos amontoam-se no cabide extragrande do lugar. Pedi água com gás com muitas pedras de gelo, fui ao banheiro duas vezes e parecia que havia marcado um encontro com Julia Roberts. “Encontro? Não é um encontro ainda, Mauro. Marisa o atenderá como faz toda noite de sábado.” Diz a voz teimosa na minha cabeça. Ela é tão prepotente, se acha a dona de toda verdade. Baixo a vista e quando ergo a cabeço, Marisa caminha lentamente em direção à minha mesa. O cabelo preso num coque bem estruturado, uniforme bem justo, mas não vulgar. Percebi que se maquiou; quando estava perto o bastante inspirei o perfume amadeirado que ela havia passado.

__ Boa noite, Ma-mauro!

Ela gaguejou! Isso é bom?

__ Boa noite, Marisa. É... Tudo bem?
__ Sim. Mauro, sem querer prolongar muito essa conversa fiada, preciso saber se é verdade tudo que diz na carta ou é alguma brincadeira de mau gosto?

COMO ASSIM? Nunca pensei que ela fosse ser TÃO direta. Ensaiei um discurso e foi tudo por água abaixo. Droga!

__ Verdade. Marisa, não estou brincando com você. Quero que acredite em tudo que disse. Já fiz muitas cartas, mas nenhuma me trouxe tanto nervosismo ou receio. Você aceita jantar comigo? Pode escolher o lugar. Prometo que vou me comportar.

Ela riu e arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha.

__ Pode ser hoje? Saio mais cedo e podemos ir ao Docce. É um restaurante que tem mais guloseimas do que pratos requintados. Gosto de tudo por lá. Quinze minutos daqui. – Ela diz com uma empolgação contida.
__ Parece ótimo. Espero-lhe aqui.
__ Mais uma hora e podemos ir.

Foi a hora mais longa da minha vida. Com permissão para exagero e todo o resto. Marisa apareceu vestida numa calça jeans justa, blusa branca e casaco leve e rosa bebê. Cabelo solto. Espetacular!

__ Podemos ir? – Pergunta sorridente.
Levantei e disse:
__ Primeiro as damas!

Ela relaxou e caminhou em direção à saída. Abri a porta do carro para ela; pareceu-me surpresa e não entendi por que. Minha mãe ensinou-me que homens precisam tratar as mulheres como se fossem flores; ela dizia isso enquanto organizava seu jardim. Cresci ouvindo isso e sempre meus amigos brincavam com esse meu jeito. Tanto faz; minha mãe era sábia e estava certa.
Fizemos o percurso em silêncio, embalados pelas músicas tocadas na rádio. Estacionei e percebi que o restaurante é bem diferente de todos os outros. Pequenas luzes cobriam o estacionamento; parecia o céu. Postes pretos e de alumínio, daqueles que vemos somente nos filmes. O lugar parecia um jardim: rodeado por flores, árvores de pequeno porte, porta e chão de madeira; parecia ser uma antiga casa. Mesas com pequenos vasos, guardanapos bem arrumados e cadeiras de alumínio com assento almofadado. Devo admitir: lugar muito bonito. Bom gosto a Marisa têm. Conversamos durante duas horas. Percebi que ela não é nada durona, corajosa, mas uma mulher delicada, sonhadora e dona de um sorriso arrebatador. Saiu de casa aos vinte anos e quer estudar Nutrição. Sonha em cuidar de crianças na África. Altruísta em cada pedaço de si. Quer ter um cachorro chamado Flocos, porque ela adora esse sabor de sorvete. É engraçada, se expressa tão bem e sorri sempre que pode.
Ela sugeriu que eu pedi-se a lasanha da casa. E teve razão ao dizer que é um “orgasmo gastronômico” e para acompanhar tomamos vinho Rosé. Ela fez algumas perguntas, mas estava tão encantado que resolvi escutá-la.

__ Você gosta de ir ao cinema? – Perguntou-me curiosa.
__ Com certeza. Gosto de drama, ficção, ação, suspense. Na verdade, gosto de uma boa história. Vamos ao cinema?

Fiquei surpreso com minha “audácia”.

__ Claro! Seria um prazer. Mas não quero chorar, então vamos assistir uma boa e velha comédia. Pode ser?
__ O que a senhorita desejar.
__ Você é sempre tão galante?
__ Somente com mulher bonita, inteligente e que atende mesas no bar da esquina.

Vi que a deixei corada e percebi que ela gostou do que disse, mas manteve-se controlada, como uma dama. Terminamos. Levei-a em casa e a vi passar pelo portão do conjunto de prédios. Sorri o restante da noite e a vi novamente em meus sonhos.


Valyne Oliveira

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