ENCONTREI-TE
NA ESQUINA DA VIDA. PARTE 3.
O (re) encontro
*Mauro*
O bar está
barulhento demais. Mesas sendo arrastadas, cadeiras tiradas do lugar, pessoas
entram e saem num ritmo desconexo. Faz frio lá fora e muitos casacos amontoam-se
no cabide extragrande do lugar. Pedi água com gás com muitas pedras de gelo,
fui ao banheiro duas vezes e parecia que havia marcado um encontro com Julia
Roberts. “Encontro? Não é um encontro ainda, Mauro. Marisa o atenderá como faz
toda noite de sábado.” Diz a voz teimosa na minha cabeça. Ela é tão prepotente,
se acha a dona de toda verdade. Baixo a vista e quando ergo a cabeço, Marisa caminha
lentamente em direção à minha mesa. O cabelo preso num coque bem estruturado,
uniforme bem justo, mas não vulgar. Percebi que se maquiou; quando estava perto
o bastante inspirei o perfume amadeirado que ela havia passado.
__ Boa
noite, Ma-mauro!
Ela
gaguejou! Isso é bom?
__ Boa noite,
Marisa. É... Tudo bem?
__ Sim.
Mauro, sem querer prolongar muito essa conversa fiada, preciso saber se é
verdade tudo que diz na carta ou é alguma brincadeira de mau gosto?
COMO ASSIM?
Nunca pensei que ela fosse ser TÃO direta. Ensaiei um discurso e foi tudo por
água abaixo. Droga!
__ Verdade.
Marisa, não estou brincando com você. Quero que acredite em tudo que disse. Já
fiz muitas cartas, mas nenhuma me trouxe tanto nervosismo ou receio. Você
aceita jantar comigo? Pode escolher o lugar. Prometo que vou me comportar.
Ela riu e
arrumou uma mecha de cabelo atrás da orelha.
__ Pode ser
hoje? Saio mais cedo e podemos ir ao Docce. É um restaurante que tem mais
guloseimas do que pratos requintados. Gosto de tudo por lá. Quinze minutos
daqui. – Ela diz com uma empolgação contida.
__ Parece
ótimo. Espero-lhe aqui.
__ Mais uma
hora e podemos ir.
Foi a hora
mais longa da minha vida. Com permissão para exagero e todo o resto. Marisa apareceu
vestida numa calça jeans justa, blusa branca e casaco leve e rosa bebê. Cabelo
solto. Espetacular!
__ Podemos
ir? – Pergunta sorridente.
Levantei e
disse:
__ Primeiro
as damas!
Ela relaxou
e caminhou em direção à saída. Abri a porta do carro para ela; pareceu-me
surpresa e não entendi por que. Minha mãe ensinou-me que homens precisam tratar
as mulheres como se fossem flores; ela dizia isso enquanto organizava seu
jardim. Cresci ouvindo isso e sempre meus amigos brincavam com esse meu jeito.
Tanto faz; minha mãe era sábia e estava certa.
Fizemos o percurso
em silêncio, embalados pelas músicas tocadas na rádio. Estacionei e percebi que
o restaurante é bem diferente de todos os outros. Pequenas luzes cobriam o
estacionamento; parecia o céu. Postes pretos e de alumínio, daqueles que vemos
somente nos filmes. O lugar parecia um jardim: rodeado por flores, árvores de
pequeno porte, porta e chão de madeira; parecia ser uma antiga casa. Mesas com
pequenos vasos, guardanapos bem arrumados e cadeiras de alumínio com assento
almofadado. Devo admitir: lugar muito bonito. Bom gosto a Marisa têm.
Conversamos durante duas horas. Percebi que ela não é nada durona, corajosa,
mas uma mulher delicada, sonhadora e dona de um sorriso arrebatador. Saiu de
casa aos vinte anos e quer estudar Nutrição. Sonha em cuidar de crianças na
África. Altruísta em cada pedaço de si. Quer ter um cachorro chamado Flocos,
porque ela adora esse sabor de sorvete. É engraçada, se expressa tão bem e
sorri sempre que pode.
Ela sugeriu
que eu pedi-se a lasanha da casa. E teve razão ao dizer que é um “orgasmo
gastronômico” e para acompanhar tomamos vinho Rosé. Ela fez algumas perguntas,
mas estava tão encantado que resolvi escutá-la.
__ Você
gosta de ir ao cinema? – Perguntou-me curiosa.
__ Com
certeza. Gosto de drama, ficção, ação, suspense. Na verdade, gosto de uma boa
história. Vamos ao cinema?
Fiquei
surpreso com minha “audácia”.
__ Claro!
Seria um prazer. Mas não quero chorar, então vamos assistir uma boa e velha
comédia. Pode ser?
__ O que a
senhorita desejar.
__ Você é
sempre tão galante?
__ Somente
com mulher bonita, inteligente e que atende mesas no bar da esquina.
Vi que a
deixei corada e percebi que ela gostou do que disse, mas manteve-se controlada,
como uma dama. Terminamos. Levei-a em casa e a vi passar pelo portão do
conjunto de prédios. Sorri o restante da noite e a vi novamente em meus sonhos.
Valyne Oliveira
Nenhum comentário:
Postar um comentário