O pianista do
bar já percebeu. Não paro de olhar para ela. Uma garçonete linda, dona de um
cabelo ruivo e olhos cor de mel, corpo bem desenhado, bumbum arredondado e
coxas grossas. Ela observa oEnn bar à procura de um copo vazio ou de uma mesa
bagunçada. Faz questão de sorrir e agradecer a cada cliente por ter vindo ao
local. Tem um jeito só dela de caminhar e carregar as bandejas lotadas de
restos. É segura de si, tem o nariz empinado e sempre olha nos olhos dos
clientes. Faz o gênero dona de si e que não leva desaforo para casa.
Apaixonante, deliciosa, dá água na boca só de pensar. Marisa é a mulher que
mexe com qualquer coração vagabundo. E eu, quem sou? Meu nome é Mauro, tenho 26
anos, solteiro e escritor. Gosto de café, moletom velho e mulher vestida apenas
com uma camisa masculina. Aí você já sabe aquela descrição tola que fazemos de
nós mesmos: tenho cabelo curto e bem cortado (creio eu), rosto comum, olhos
castanhos e corpo bem nutrido (que idiotice). Blá-blá-blá!
Venho ao
mesmo bar na esquina todos os sábados só para vê-la. Tomo umas doses de
coragem, ensaio meu discurso e a chamo para fazer meu “pedido”. Ela chega à
mesa com um sorriso ensaiado e tom de voz tranquilo na medida certa. Há oito
sábados faço isso e ela já decorou o meu nome, mas isso não faz diferença
alguma. Até agora:
__ Boa
noite, Mauro. Posso anotar seu pedido ou o mesmo de sempre?
__ Como? –
Pareço um tolo-infantil-idiota.
__ Pedido. O
de sempre. Você.
__ Ah! Sim,
sim. O de sempre, Ma-Marisa.
E só. Apenas
quatro frases. Grande diálogo! Resolvi escrever uma carta para ela. É bem mais fácil para mim.
*Duas horas
depois*
A luz da
minha escrivaninha precisa ser trocada. Teimo em usar cada lâmpada até que
queime. O papel continua em branco e continuo a tamborilar a mesa numa falta de
ritmo incrível. Não sei se começo com o
clichê: “Querida Marisa” ou se escrevo a carta desesperadamente... Vou começar
pelo começo (típico pensamento de gente besta).
Marisa,
Passei uma hora olhando para o papel e não
sabia como escrever esta carta. Meu nome é Mauro, mas você já sabe disso. Tenho
26 anos e trabalho numa editora. Você deve estar assustada por receber uma
carta de um desconhecido, porém acredito que terei mais sucesso se não falar
diretamente com você, pelo menos agora. Vou ao bar todos os sábados não só pela
música, bebidas ou gente bonita; o motivo é você. Não tenha medo, não sou louco
(risos), sou tímido. Agora você deve está se perguntando: O quê esse homem quer
dizer?
Acho você uma mulher especial como
poucas. Já vivi muitos relacionamentos, conheço muitas mulheres, mas nenhuma
delas é tão maravilhosa quanto você. Posso ver que és uma mulher forte, com o coração
generoso e dona de uma personalidade intrigante. Gosto de mulheres com um “quê”
a mais, mulheres que receberiam um prêmio pelo sorriso. Acredito que tens
muitas cicatrizes e feridas não fechadas n’alma, quero conhecer todas e ajudar
a curá-las, desejo te levar ao parque pelo prazer da tua companhia, andar de
mãos dadas, conversar, situações simples, entende?
A carta tem uma finalidade e é a
seguinte: Marisa, você aceita sair comigo? Quero levá-la para jantar, te fazer
sorrir e mostrar que não sou mais um cafajeste que apenas deseja ir para cama
com você. Deixa? Preciso provar do sabor dos teus lábios e ouvir o som da tua
gargalhada quando eu disse algo tolo.
Espero que não me leve a mal. Você é encantadora
e escritores tem uma queda por mulheres assim.
Com carinho e atenção,
Teu admirador quase secreto.
*Fim*
Próximo
sábado é o grande dia; preciso fazer a barba e parecer menos doentio. Um homem
fica nervoso por conta de uma mulher ou isso é raro? Grande Mauro, dando uma de
Romeu apaixonado e bobo. Você percebe que as coisas estão fora do controle
quando começa a falar sozinho... Respira Mauro. Respira!
Valyne
Oliveira
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