domingo, 10 de março de 2013

Encontrei-te na esquina da vida


O pianista do bar já percebeu. Não paro de olhar para ela. Uma garçonete linda, dona de um cabelo ruivo e olhos cor de mel, corpo bem desenhado, bumbum arredondado e coxas grossas. Ela observa oEnn bar à procura de um copo vazio ou de uma mesa bagunçada. Faz questão de sorrir e agradecer a cada cliente por ter vindo ao local. Tem um jeito só dela de caminhar e carregar as bandejas lotadas de restos. É segura de si, tem o nariz empinado e sempre olha nos olhos dos clientes. Faz o gênero dona de si e que não leva desaforo para casa. Apaixonante, deliciosa, dá água na boca só de pensar. Marisa é a mulher que mexe com qualquer coração vagabundo. E eu, quem sou? Meu nome é Mauro, tenho 26 anos, solteiro e escritor. Gosto de café, moletom velho e mulher vestida apenas com uma camisa masculina. Aí você já sabe aquela descrição tola que fazemos de nós mesmos: tenho cabelo curto e bem cortado (creio eu), rosto comum, olhos castanhos e corpo bem nutrido (que idiotice). Blá-blá-blá!
Venho ao mesmo bar na esquina todos os sábados só para vê-la. Tomo umas doses de coragem, ensaio meu discurso e a chamo para fazer meu “pedido”. Ela chega à mesa com um sorriso ensaiado e tom de voz tranquilo na medida certa. Há oito sábados faço isso e ela já decorou o meu nome, mas isso não faz diferença alguma. Até agora:

__ Boa noite, Mauro. Posso anotar seu pedido ou o mesmo de sempre?
__ Como? – Pareço um tolo-infantil-idiota.
__ Pedido. O de sempre. Você.
__ Ah! Sim, sim. O de sempre, Ma-Marisa.

E só. Apenas quatro frases. Grande diálogo! Resolvi escrever uma carta para ela. É bem mais fácil para mim.

*Duas horas depois*

A luz da minha escrivaninha precisa ser trocada. Teimo em usar cada lâmpada até que queime. O papel continua em branco e continuo a tamborilar a mesa numa falta de ritmo incrível.  Não sei se começo com o clichê: “Querida Marisa” ou se escrevo a carta desesperadamente... Vou começar pelo começo (típico pensamento de gente besta).

Marisa,
 Passei uma hora olhando para o papel e não sabia como escrever esta carta. Meu nome é Mauro, mas você já sabe disso. Tenho 26 anos e trabalho numa editora. Você deve estar assustada por receber uma carta de um desconhecido, porém acredito que terei mais sucesso se não falar diretamente com você, pelo menos agora. Vou ao bar todos os sábados não só pela música, bebidas ou gente bonita; o motivo é você. Não tenha medo, não sou louco (risos), sou tímido. Agora você deve está se perguntando: O quê esse homem quer dizer?
Acho você uma mulher especial como poucas. Já vivi muitos relacionamentos, conheço muitas mulheres, mas nenhuma delas é tão maravilhosa quanto você. Posso ver que és uma mulher forte, com o coração generoso e dona de uma personalidade intrigante. Gosto de mulheres com um “quê” a mais, mulheres que receberiam um prêmio pelo sorriso. Acredito que tens muitas cicatrizes e feridas não fechadas n’alma, quero conhecer todas e ajudar a curá-las, desejo te levar ao parque pelo prazer da tua companhia, andar de mãos dadas, conversar, situações simples, entende?
A carta tem uma finalidade e é a seguinte: Marisa, você aceita sair comigo? Quero levá-la para jantar, te fazer sorrir e mostrar que não sou mais um cafajeste que apenas deseja ir para cama com você. Deixa? Preciso provar do sabor dos teus lábios e ouvir o som da tua gargalhada quando eu disse algo tolo.
Espero que não me leve a mal. Você é encantadora e escritores tem uma queda por mulheres assim.

Com carinho e atenção,
Teu admirador quase secreto.
*Fim*

Próximo sábado é o grande dia; preciso fazer a barba e parecer menos doentio. Um homem fica nervoso por conta de uma mulher ou isso é raro? Grande Mauro, dando uma de Romeu apaixonado e bobo. Você percebe que as coisas estão fora do controle quando começa a falar sozinho... Respira Mauro. Respira!

Valyne Oliveira

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