A luz do meu
quarto é a única ainda acesa. É uma da madrugada e o silêncio da cidade se faz
presente. O vento bate nas janelas dos vizinhos e os cachorros latem para o
invisível. Continuo a encarar o teto do meu quarto; já virei o travesseiro
dezenas de vezes, só para ter aquela sensação fria e confortável.
O
tique-taque do relógio não me incomoda mais, os porta-retratos estão sem fotos
e meu criado-mudo cheira a café. Não consigo dormir a dois dias. Fico revivendo
cada momento que tive com você, apego-me a qualquer lembrança nossa. Desconheço
a mim mesma; já não me considero aquela garota do sorriso bonito e sem fim. É
bem triste perceber que as pessoas mentem tão bem que chega a parecer verdade.
Tuas
palavras confortavam meu coração, sentia-me querida e amada. Como pôde fingir
tão bem? Decepção é a única palavra que me remete a você. Não posso dizer que
tudo foi em vão, tivemos momentos engraçados, felizes até. Mas se for para tirar
uma lição disso tudo, aprendi esta: nunca aposte todas as suas cartas em
alguém; o ser humano é dono de muitas facetas, muitas das quais ele não tem
conhecimento.
Sei que vai
demorar a cicatrizar os machucados no meu coração, sei disso, mas o tempo vai
passar e vou preenchê-lo com sentimentos bons, pessoas novas e fé. Ainda vou
sorrir de mim por sofrer por alguém tão mesquinho... Ah vou!
Valyne Oliveira
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