sábado, 12 de janeiro de 2013


‎- parte 5 -

Diário de Laura, dia 415. Quinze de junho de 1942.

Tenho escrito menos sobre você. Deve ser um bom sinal, espero. Aprendi a camuflar tudo que sinto; só quem me conhece sabe que ainda não superei você. Juro que tentei, não pense que estou gostando de ser a pobre e triste Laura. É desgastante. Hoje pela manhã a Dona Lola, minha querida e super-protetora mãe, veio saber se ainda respiro. Conversamos por um bom tempo e ela teve que perguntar: “Por que não sai hoje à noite?”. Que mãe é essa que diz para a filha sair e procurar homem? Sei que ela não disse isso, mas tenho certeza que pensou. Dona Lola sempre foi à frente do seu tempo.
Conheci um homem lindo, educado e cavalheiro semana passada. Ele é encantador. Dei boas risadas, conversamos por horas e passeamos depois de jantarmos num charmoso restaurante. Confesso que fiquei atraída e tive vontade de ficar mais um tempo ao lado dele. Trouxe-me para casa como um legítimo cavalheiro. Acredita que ele me chamou para fazermos um piquenique? Aceitei, e as 16h00min tenho que estar pronta.
Engraçado como o ser humano aprende a lidar com situações extremas; sou profissional na arte de pintar sorrisos no meu rosto. As pessoas que trabalham comigo no hospital nem suspeitam da nossa história, Eduardo. Eles acham que sou calada e rabugenta de natureza; imagino você dizendo a eles: “Seus tolos, essa mulher é pior que criança”.
Daqui seis meses faço um teste para a escola de música; preciso deixar de maltratar o piano na casa da mamãe. Quero aprender a pintar. Ontem, quando voltava do trabalho, vi um casal de idosos; ela com seu vestido antigo lilás, chapéu e uma bolsa de mão e ele vestido num terno bem cortado e acinzentado, o jeito como andavam dizia tudo sobre eles: mãos dadas, braços encontrando-se a cada passada, conversa baixa e íntima, sorrisos meigos e cúmplices. Apaixonados. Bateu uma vontade transformá-los em arte; daria um belo quadro. É óbvio que já desejei o mesmo para nós.
Será que ainda pensa em mim? Sonha comigo e todas aquelas bobagens que fazemos quando amamos alguém? Lembro perfeitamente quando disse: “Lalá, vou sempre ser teu companheiro”. Eduardo, esse “sempre” que usaste tem prazo validade. Esqueceu-se de me contar sobre isso também?
Boa noite, meu anjo Eduardo.

Observação de hoje: ainda não consigo ignorá-lo em minhas orações.


Valyne Oliveira

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