Parte 1, 21 de agosto de 2005. / Quando tudo começou: a história de Safira e Gabriel.
Nasci cega. Muitos podem achar assustador, mas eu me considero tão “comum” quanto qualquer amigo ou amiga minha. Curso o primeiro ano de Psicologia. Hoje estou começando uma nova etapa na minha vida: vou escrever sobre minha rotina. Dona Suzana, minha mãe, disse que é uma boa ideia e que isso vai fortalecer meus pensamentos. Não entendi muito o quê ela quis dizer com isso, mas sei que ela tem razão já que escreveu durante toda sua juventude e continua a ser uma mulher brilhante.
O computador é minha ferramenta de trabalho. Meus pais ficaram surpresos ao me ver usando-o com tanta facilidade. Quanta bobagem, certo? Moro próximo a universidade e a considero meu segundo lar. É muito bem estruturada para pessoas com deficiência assim como eu. Tem um programa de reabilitação para crianças que ficaram ou nasceram cegas; quero muito trabalhar com elas num futuro próximo.
Sinceramente, não queria começar um “diário”, mas alguém me fez pensar que seria uma ótima ideia. Ele se chama Gabriel, tem 21 anos, um ano a mais do que eu. O conheci na lanchonete próximo a minha casa; vou a essa charmosa lanchonete desde sempre. Era um sábado, desejava um sundae que só Dona Luisa, dona do “Com doçura”, sabe fazer. Sentei-me na cadeira alta próxima ao balcão. É uma cadeira macia de estofada vermelho, segundo minha mãe. Senti alguém sentando próximo a mim: perfume cítrico, passos leves, respiração compassada, movimentos cuidadosos.
___ Não quebro com facilidade. Não se preocupe. Disse num tom de brincadeira.
___ Ah! Desculpe incomodá-la.
___ Relaxa. Estou brincando. Qual seu nome?
Silêncio.
___ Alô? Perguntei, desconfiada.
___ Desculpe-me. Você é incrível. Não quero ser grosseiro, mas venho te observando faz duas semanas.
Sorri um pouco assustada e lisonjeada.
___ Nome, senhor desconhecido.
___ Gabriel Buarque.
___ Safira, apenas Safira.
Ouço o som gostoso do sorriso dele e me parece autêntico.
Conversamos durante duas horas e fomos interrompidos por Dona Suzana, meu pai a chama de Sargento nas horas vagas, Seu Pedro é hilário. Descobri que ele faz Engenharia Civil, joga futebol e adora assistir filmes. Tem um cachorro chamado Babão, nome estranho e engraçado, e ele tem 5 anos de idade. Mora com os irmãos mais novos, Luan e Davi, 18 e 19 anos, respectivamente. Pediu para me levar ao cinema neste sábado. Aceitei e, na volta para casa, percebi que o aquele sorriso tem “gostinho de quero mais”. Devo dizer que estou ansiosa e já experimentei cada roupa do meu guarda-roupa? Creio que não.
Boa noite, anjo Gabriel. Faltam três dias para vê-lo.
(continua)
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